segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Como contar uma vida em 300 palavras

Brady Dennis, repórter do St. Petersburg Times, aceitou o desafio de escrever histórias inteiras usando no máximo 300 palavras. E histórias de pessoas comuns, que jamais despertariam o interesse da Imprensa.

Acabou ganhando o Prêmio Ernie Pyle de Jornalismo.

Uma dessas histórias chama-se "Depois que o céu caiu". O texto merece ser lido por todos os estudantes de jornalismo.

Aqui está ele, prejudicado por minha tradução, mas ainda assim um ótimo texto.

"Os poucos motoristas que passam pela Rodovia Costa do Sol, no condado de Pasco, dirigem-se à cabine de pedágio, entregam o dinheiro a Lloyd Blair e vão embora.

Nenhum deles sabe porque o velho homem senta-se ali, noite após noite, trabalhando naquele quase cemitério.

Bem, aqui está porque:

Porque anos atrás, numa gélida noite de inverno, em uma festa no Queens, Nova Iorque, ele conheceu uma mulher chamada Millie.

Porque ele se apaixonou por seus cabelos castanhos, seus grandes olhos e eletrizante sorriso.

Porque eles se casaram, foram morar em Staten Island, tiveram um filho e trabalharam por décadas em Manhattan; ela como contadora, ele como bancário.

Porque tinham o sonho de aposentar-se e ir morar na Flórida, e então economizaram a vida inteira, para tornar o sonho possível.

Porque, justo quando começaram a falar em mudar-se de Nova Iorque para o Sul, ela recebeu um diagnóstico de câncer de mama, e eles gastaram todo o tempo e dinheiro viajando para Nova Jersey, San Diego e México, em busca de cura.

Porque, no fim das contas, eles foram para a Flórida, de qualquer forma.

Porque eles finalmente compraram uma casa em Spring Hill, embora Millie estivesse tão fraca naquele dia que nem conseguiu sair do carro.

Porque ela morreu nove dias depois, em 5 de janeiro de 2002, um dia em que "o céu inteiro desabou", disse ele.

Porque, depois que ela se foi, ele se descobriu sozinho, com uma dívida de US$ 100 mil.

E então ele pegou o emprego.

Os motoristas que passam vêem um sorridente velho de 71 anos, com olhos azuis e um bigode grisalho, que diz a cada um deles: "Tenha uma boa noite!"

Eles não sabem o resto da história de Lloyd Blair, ou que ele carrega uma foto de Millie no bolso da camisa, logo abaixo do crachá, logo acima do coração."

3 comentários:

Leonardo Parente e Milena Brasil disse...

Maravilhoso! Traduz mais coisas cara.

Carlos Baqueiro disse...

Olá,

A maneira de escrever de Braddy Dennis se parece muito com os textos de Gay Talese e outros caras do jornalismo literário. Muito bom !!! Inda mais em 300 palavras. Um sufoco de criatividade.

Viva a blogosfera !!! :-)

Alberto Oliveira disse...

É verdade. O jornalismo precisa de textos como esse. A matéria mostra que uma boa história pode ser encontrada em todos os lugares. Não é preciso escrever sobre famosos, para atrair a atenção dos leitores.